terça-feira, 9 de setembro de 2008

Bush à Moda Venezuelana

Por Fernando R. V. Fernandes

É incrível como as pessoas mudam rapidamente de opinião quando é “o seu” que está na reta. O que antes era abominado passa a ser a melhor opção, justa e necessária para o bem de todos. Claro, até que “os outros” pensem em fazer o mesmo.

A crise hipotecária nos Estados Unidos levou o Governo Bush a tomar uma atitude antes atribuída aos “totalitaristas sul-americanos”: apossar-se de empresas privadas para “salvar o país” do risco iminente. Apesar de todo o floreio com que a notícia foi dada, na prática, o que Bush fez com a Fannie Mae e a Freddie Mac foi apossar-se das empresas sem o menor pudor.

Vejamos os dados: Bush anunciou que assumirá imediatamente US$ 1 bilhão em ações de cada uma das empresas. Esse valor pode subir a um teto de US$ 100 bilhões caso seja necessário. Uma atitude nobre? Nem tanto, quando se considera que, de agora em diante, a empresa tem a obrigação de pagar em primeiro lugar ao Governo, para depois devolver o dinheiro aos seus acionistas preferenciais e comuns.

Trocando em miúdos, na hipótese de que as empresas em questão venham a quebrar, o governo fica com o filé, enquanto as pessoas que investiram na sua criação e aquelas que apostaram nas companhias durante sua trajetória têm de dividir “a carcaça” que sobrar.

Ora, quando o venezuelano Hugo Chávez decidiu recuperar o petróleo de seu país, não foram os americanos os primeiros a espernear? Claro, o método usado por Chávez foi diferente do usado por Bush mas, em essência, ambos resultam na mesma situação: empresas antes privadas passando a serem controladas pelo Estado.

Quando Evo Morales, da Bolívia, nacionalizou o gás, foi a vez dos brasileiros chorarem porque perderam a “chupeta”. Nos casos sul-americanos, a atitude dos respectivos governos foi vista como uma manobra populista de governos de esquerda. No caso americano, salvo alguma exceções, fala-se em uma tentativa de salvar a maior economia mundial?

Antes de prosseguir, quero deixar algo claro: este texto não é uma defesa de Chávez ou Morales. É uma constatação de que discursos e ações mudam de acordo com a conveniência. “Pimenta no dos outros é refresco”, “mas se tentar vir pro meu lado, eu arrebento!”.

A questão é que, diferente do que pregam os livros didáticos, o colonialismo/imperialismo não morreu com a independência das ex-colônias africanas e sul-americanas. O que acontece é que hoje os impérios não são estatais, são privados, e não dominam países inteiros, somente o que eles têm de melhor, como seu petróleo, gás, água ou energia. Estes impérios modernos, claro, são guiados pela famosa “mão invisível” que promete um mercado para todos, mas presenteia a poucos.

Ultimamente tem crescido a consciência dos países ditos “em desenvolvimento” de que os ganhos obtidos por suas riquezas naturais são seus, e de ninguém mais. Aliás, esta é uma das idéias de Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, que prega também que, quando o dono do recurso natural não dispõe dos recursos financeiros para desfrutar dos ganhos potenciais que a natureza lhe oferece, deve pagar um valor justo (no sentido literal da palavra) para aqueles que possam auxiliá-lo a extrair da natureza seu potencial, sempre de forma “sustentável”.

O que acontece hoje no mundo é que as “colônias” estão tomando consciência de sua situação e, se não dispõem da força necessária para emanciparem-se, estão dispostos a reuni-la ou a enfraquecer os “impérios”. E a maioria delas não se importa de ter uma imagem negativa diante da “nobreza” se isso resultar na liberdade que desejam. O medo deixa de funcionar como repressor quando não se tem mais nada a perder.

Em Tempo: Não fazia parte da intenção original deste texto voltar a tocar no tema Itaipu, mas ao ler o noticiário paraguaio de hoje me deparei com a notícia de que os industriais paulistas criticaram a forma como o governo Lula tem atuado frente às reivindicações paraguaias sobre a binacional. “O Brasil é um país com interesses concretos, não uma fundação filantrópica”, dizem “os mano”.

Pois bem, alguém deve lembrá-los que o Paraguai, tampouco, é uma fundação filantrópica, para financiar os grandes lucros da indústria brasileira às custas de sua soberania. Enquanto a indústria brasileira não enfrentar dificuldades em conseguir insumos baratos (mão-de-obra, matéria-prima, energia, etc.), não vai se esforçar em investir em áreas que realmente diferenciam uma empresa atualmente: tecnologia, processos e, principalmente, pessoas.

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